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15 de mai. de 2013

HITLER, Será que ele era?



            
Será que ele era?

Por que os ativistas gays não divulgam isso?

Em O Segredo de Hitler, um historiador alemão defende a tese de que o führer era gay. Indícios (picantes) não faltam

Carlos Graieb  Sven Simon

 
Ai, Hitler: o ditador nazista teria sido garoto de programa

A ideia de que o ditador nazista Adolf Hitler tinha algo de homossexual não é novidade. Suas poses em fotografias, seus trejeitos, seu bigode e seu chicote – tudo isso já foi visto como indício de uma "inclinação homoerótica". Muitos escritores registraram suas suspeitas de maneira clara. "Hitler não desprezou as mulheres, mas preferiu mil vezes o jeito másculo dos rapazes", escreveu o alemão Heinrich Mann, para ficar num exemplo só. Entre os biógrafos e historiadores, contudo, esse tipo de diagnóstico sempre foi tratado com desconfiança. A principal causa disso é a escassez de documentos que sirvam de prova. Hitler resguardou como pôde sua vida privada. Enquanto esteve no poder, mandou apreender e destruir inúmeros papéis referentes a si, o que tornou difícil fazer afirmações categóricas sobre sua intimidade. Difícil, mas não impossível – é o que argumenta o historiador alemão Lothar Machtan, que lança nesta semana O Segredo de Hitler (tradução de Kristina Michahellis; Objetiva; 352 páginas; 37,90 reais). Machtan explora a fundo, pela primeira vez, a sexualidade do líder nazista. Para tanto, reúne depoimentos que nunca receberam muita atenção dos especialistas e procura submetê-los a um escrutínio rigoroso. Machtan acaba convencido de que Hitler foi para a cama com homens a partir da adolescência, e que aprendeu a sublimar seus desejos na década de 30. Mais do que mera curiosidade biográfica, esse fato ajudaria a explicar passos fundamentais de sua carreira.

Hitler nasceu em 1888. O primeiro capítulo do livro cobre o período que vai de 1905 a 1914, quando ele tentou viver como artista em Viena e Munique. A tese de Machtan sobre essa fase é forte: para sustentar-se, Hitler teria virado garoto de programa. Com talento escasso para a pintura e pouco dinheiro no bolso, ele morava em albergues notórios pela concentração de homossexuais. Percorria as ruas com suas aquarelas debaixo do braço, tentando chamar a atenção de homens mais velhos e endinheirados, com quem depois se deitaria. "Tudo indica que Hitler não oferecia apenas sua obra, mas a si próprio", diz Machtan. Nessas páginas iniciais, o autor também propõe uma solução para um antigo enigma: a origem do anti-semitismo de Hitler. Como ele próprio declarou mais tarde, esse sentimento o acometeu pela primeira vez em 1907. Ora, observa Machtan, foi exatamente nesse ano que a imprensa judaica de Viena dispensou tratamento raivoso a um caso de denúncia homossexual, o que ensejou a ira e a aversão do jovem Adolf. Deve-se dizer, no entanto, que as fontes do autor para esse período não são das melhores. Ele se apóia em relatos de amigos de Hitler, como August Kubizek ("Gustl" na intimidade) e Reinhold Hanisch, que dividiram alojamento com ele e teriam sido seus amantes. Tudo que esses depoimentos oferecem são insinuações. 

Nada definitivo.

O material esquenta nos capítulos seguintes. Machtan apresenta personagens que foram bem mais explícitos a respeito da sexualidade de Hitler. O primeiro é o soldado Hans Mend, companheiro de Hitler no Exército alemão durante a I Guerra Mundial. Em 1932, Mend publicou um livro que deveria ter servido à propaganda do líder nazista, então em plena ascensão, mas acabou não agradando. Enfurecido por ter sido colocado de escanteio, Mend ameaçou revelar velhos segredos. Fez uma aposta arriscada – e perdeu. A partir de 1933, Hans Mend foi perseguido pela Justiça alemã. Morreu na prisão nove anos mais tarde. Como era de esperar, a documentação oficial sobre ele sumiu. Mas um dossiê se salvou em duas cópias, hoje depositadas no Arquivo Central da Baviera e no Instituto para História Contemporânea de Munique. O chamado Protocolo Mend pinta um retrato negativo do cabo Hitler na I Guerra: bajulador, dissimulado, hipócrita. Sem rodeios, ele aborda a questão sexual. "Observávamos que ele nunca olhava para as mulheres. Desde o início suspeitamos que fosse homossexual, pois tinha fama de anormal. Era extremamente excêntrico, revelando traços efeminados", diz o texto. Hitler tinha um companheiro inseparável em seu regimento, Ernst Schmidt – ou Schmid, seu apelido carinhoso. Mend se refere a esse homem como "queridinho" e "prostituta masculina" do futuro chanceler do III Reich.

Outras fontes importantes para Machtan são o diplomata Eugen Dollman e o escritor Erich Ebermayer. Dollman foi representante alemão na Itália. Serviu ao führer como intérprete nos encontros que esse manteve com o ditador fascista Benito Mussolini. Em 1949, publicou um livro de memórias que menciona a homossexualidade de Hitler logo nas primeiras páginas. Entre as recordações, inclui-se a de um jantar com o general Otto von Lossow, pouco depois de ele haver desbaratado o golpe de Estado que os nazistas tentaram dar no começo dos anos 20. Lossow teria mostrado aos convivas um relatório secreto que guardava para defender-se contra possíveis represálias. Segundo Dollman, eram várias páginas com depoimentos de jovens pobres que haviam sido abordados na rua por Adolf Hitler, levados para jantar em pequenos restaurantes, instruídos a respeito dos ideais nazistas e depois convidados a passar a noite em seu quarto. Ao contrário de Dollman, Erich Ebermayer não teve contatos pessoais freqüentes com Hitler, mas conhecia bem pessoas de seu grupo. Filho de uma família tradicional, era homossexual e nunca se preocupou em esconder o fato. Falou sobre a intimidade do ditador nas páginas de um diário pessoal que publicou em 1959. "Para todos aqueles que estão por dentro dos fatos, Rudolf Hess – mais conhecido nos círculos do partido como 'preta Emma' – foi por muitos anos amigo íntimo do führer. Meus informantes, que são totalmente confiáveis, enfatizam com orgulho a tendência homoerótica do führer e de seu círculo mais próximo. O próprio não está mais vivendo sua opção depois que a política passou a absorver cada vez mais suas forças. Só de vez em quando, nas viagens de carro entre Berlim e Munique, ele tem a oportunidade de relaxar", registra o autor numa anotação de 1933.

Os capítulos mais importantes do livro de Machtan, contudo, são aqueles dedicados ao relacionamento entre Hitler e Ernst Röhm. Militar de carreira, esse último já tinha um alto posto no Exército alemão na I Guerra Mundial. Era um homem influente quando conheceu Hitler, em 1919. Encantou-se com sua oratória e resolveu incentivá-lo a ingressar na vida pública. Conforme observou um contemporâneo, foi Röhm quem "calçou as botas em Hitler e o colocou em marcha". Enquanto ele galgava os degraus da carreira política, Röhm tratava de ganhar a lealdade do Exército alemão. Tornou-se o grande líder da tropa regular nazista (a SA, que se contrapunha à SS, a tropa de elite). Os dois entrariam em rota de colisão. Em junho de 1934, pouco depois de Hitler ser eleito chanceler, Röhm foi executado. Juntamente com ele, dezenas de correligionários e opositores do regime foram eliminados. O episódio é interpretado nos livros sobre a II Guerra como resultado de uma luta interna pelo poder. Segundo Machtan, é preciso levar em conta a questão da homossexualidade nos círculos nazistas para entender de maneira completa os acontecimentos.

A tese do historiador é a de que Hitler, que havia tempos hesitava entre a arte e a política, só optou por essa última porque encontrou em Röhm um modelo e, em seu grupo de militares, um ambiente onde se sentia à vontade. Homossexual declarado, Röhm professava o ideário do escritor Hans Blüher, autor de textos sobre o "fenômeno erótico" que estiveram em voga no começo do século. Pode-se dizer que esses textos faziam apologia do amor na caserna. Defendiam a idéia de que o afeto entre amigos, no interior de agremiações masculinas, ajudava a forjar heróis e líderes carismáticos. Machtan demonstra que esse ideário foi muito influente nos primórdios do nazismo. "Erotismo e sexualidade entre homens carregados de ideologia foram pedras angulares da cultura fascista no período pré-1933", escreve ele. Depois da ascensão de Hitler ao poder, porém, o quadro político se complicou. No interior do governo formaram-se grupos opostos: Röhm de um lado, Himmler e Goebbels do outro. Não demorou para que as inclinações de Röhm fossem usadas contra ele. Durante algum tempo, Hitler procurou equilibrar-se nessa briga. Finalmente, postou-se contra o antigo mentor. Os assassinatos de 1934, e o de Röhm em particular, foram justificados como meio de expelir do partido seus quadros "degenerados". A partir dessa data, a perseguição aos homossexuais passou a fazer parte do programa nazista.

Machtan reconhece que essa perseguição parece um obstáculo à sua teoria de um "Hitler gay". Só à primeira vista, afirma ele. Em primeiro lugar, a lei alemã de repressão à homossexualidade não foi invenção nazista. Constava de muito antes no Código Penal e perdurou até 1969. Em segundo lugar, não se pode falar em holocausto gay como se fala de holocausto judeu. A eliminação não foi nem de longe tão sistemática. Homossexuais influentes, com ligações no partido nazista, foram poupados. O já citado Erich Ebermayer é um exemplo. Além disso, Hitler nunca se manifestou abertamente contra a homossexualidade. Os discursos mais ácidos sobre o tema foram feitos por outros, como Himmler. Se ele concordou com a caça às bruxas de 1934, foi por instinto de autopreservação. Há indícios de que Röhm tentou usar suas informações sobre a intimidade do führer para chantageá-lo. Para consolidar seu poder e livrar-se desse embaraço, Hitler o sacrificou. Também passou a sublimar a própria sexualidade. Voltou para dentro do armário. O namoro dos anos seguintes com a vendedora Eva Braun não seria mais que uma farsa conveniente. Nesse ponto os biógrafos são unânimes: nunca houve sexo entre eles.

FINAL ROMÂNTICO
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O colega de alojamento Gustl: supostos amantes

"Estava com pena de Adolf – suas roupas de baixo completamente encharcadas, ele tiritava de frio. Peguei um dos panos, abri-o sobre o feno e disse a Adolf para tirar a camisa molhada e a cueca e se enrolar nele. Foi o que ele fez. Nu, Adolf deitou-se sobre o tecido. Juntei as pontas e o envolvi firmemente. Depois, peguei um outro pano para cobri-lo. Então me deitei ao lado dele. Adolf não fazia questão que houvesse mais alguém ali. Divertia-se com a nossa aventura e aquele final romântico lhe agradava bastante. Afinal, estávamos bem quentinhos."

Depoimento de August Kubizek, em O Segredo de Hitler

ADI E SCHMIDT
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Hitler (o segundo, da dir. para a esq.) e Schmidt (ao centro): mais que companheiros

"Desde o início, suspeitamos que fosse homossexual. Era extremamente excêntrico, revelando até mesmo traços efeminados. Nunca tinha um propósito claro ou convicções firmes. Em 1915, estávamos alojados na cervejaria Le Febre, em Fournes, onde dormíamos sobre feno. Hitler costumava passar as noites com Schmidt, sua prostituta masculina. Certa vez, ouvimos um ruído no feno. Um de nós acendeu a lanterna e grunhiu: 'Vejam só aquelas duas'. De outra vez eu estava com uma garota no Café Rathaus quando entrou 'Adi' com seu amigo Schmidt. Hitler me abordou: 'Olá, você sabe onde posso encontrar um lugar para dormir?' Minha garota reclamou: 'Se você se dá com esse tipo de gente, não fico mais com você.' "

Depoimento de Hans Mend

SA HIPERGAY
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"Os êxitos de Röhm não se deviam apenas à sua fama como oficial competente, mas também à sua política de administração de pessoal. As posições-chave dentro da SA eram ocupadas preferencialmente por homossexuais, que convidavam amigos para ocupar outros cargos. Em pouco tempo a SA ganhou fama de ser uma associação homossexual. Em entrevista há alguns anos o crítico de arte Christian Adolf Isermeyer recordou-se: 'Conheci também gente da SA. Em 1933 ainda promoviam festas ruidosas em Berlim. Estive numa delas. A festa era bem-comportada, mas totalmente gay, só havia homens. A SA era hipergay naquela época'. A inclinação homoerótica da SA acabou por se tornar um flanco aberto para a direção do partido, alvo fácil para adversários políticos."

Trecho de O Segredo de Hitler

Fonte: Veja
Divulgação: www.jorgenilson.com



            

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