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18 de mar de 2010

Educação compulsória e totalitarismo

Educação compulsória e totalitarismo

Sergio de Biasi

“Os homens nascem ignorantes, não incapazes de pensar. O que os torna incapazes de pensar é a educação”. — Bertrand Russell

Pedro Sette Câmara escreveu recentemente um texto sobre o fetiche com educação que existe no Brasil. Eu concordo plenamente com o que ele escreveu, e diria que esse na verdade é um mal disseminado pela maior parte das sociedades ocidentais modernas. Aceita-se como natural, boa e até desejável a obrigatoriedade — repito, a obrigatoriedade, coercitivamente imposta por lei — de todos os “cidadãos” de um país passarem grande parte de dez anos ou mais de suas vidas prestando expediente forçado para ouvir ideias selecionadas pelo governo como convenientes para sua “formação”.

E não é suficiente (embora já seja opressivo) ser forçado a demonstrar proficiência no conhecimento de tais ideias, o que se poderia facilmente aferir com uma série de exames, para os quais cada um estudaria como quisesse, onde quisesse, e com quem quisesse. E prestaria os exames com a idade que quisesse. Não, não, não. Quem se pergunta por que tal solução óbvia não é adotada não compreendeu o verdadeiro objetivo do sistema todo. É preciso passar pelo processo.
O objetivo primordial da educação compulsória não é ensinar coisa alguma. É destruir a independência de pensamento; é cultivar, instilar e estimular a subserviência à autoridade até ela desabrochar em toda a sua glória; é tornar tão doloroso o exercício do senso crítico que se adquire por trauma o instinto quase fóbico de evitá-lo a todo custo. Quando finalmente esses objetivos são atingidos, então se dá um diploma ao sujeito e se diz “formamos um cidadão”.

O sistema educacional público americano moderno é uma completa aberração e tomou emprestadas várias de suas características de um plano declarado de doutrinação e controle social em massa concebido originalmente na Prússia do século 19. O excelente The War On Kids documenta como existe hoje, formalmente e na prática, menos respeito às liberdades civis numa escola pública do que numa prisão.

O sistema brasileiro pode não ser tão opressivo, mas é igualmente distorcido. É usado para tudo, menos para ensinar; é encarado como instrumento de assistência social, como creche, até mesmo como ferramenta de segurança pública, ao manter menores desocupados fora das ruas.
Historicamente, no Brasil e em grande parte das democracias ocidentais (inclusive nos EUA), um dos maiores objetivos que se pretende declaradamente atingir ao se expandir o currículo obrigatório básico é... retirar artificialmente mão de obra qualificada do mercado de trabalho, visando diminuir o desemprego e aumentar os salários. Note-se, isso não são teorias conspiratórias. Todos esses são motivos explicitamente discutidos por legisladores e membros do poder executivo ao determinarem política educacional.

Isso já seria inaceitável em um sistema de educação que visasse preservar tão somente o “direito” à educação, entendido como a possibilidade de acesso à educação. Já seria intolerável em um programa cujo financiamento é compulsoriamente sustentado por todos nós, e sobre o qual não temos qualquer controle. Mas o limite final é ultrapassado quando se aceita fazer esse “direito” à educação ser “exercido” de forma compulsória. Isso é totalitarismo puro e simples, e me parece que deve ser uma das prioridades de qualquer programa seriamente libertário lutar pela total reversão das políticas públicas que prevêem, literalmente, o encarceramento de toda a nossa juventude por mais de 10 anos de suas vidas.

Agora, vejamos, de que ilusões se alimenta esse sistema, que muitos defendem alegando que algum mérito efetivamente educacional se possa salvar?

A principal ilusão é a de que alguém está aprendendo alguma coisa. Mas, como se pode verificar conversando com qualquer adulto normal, absolutamente ninguém retém os profundos “conhecimentos” supostamente infundidos em seus cérebros quando adolescentes. Pergunte a alguém que não seguiu carreira relacionada com química qual é a diferença entre um éter e um éster. Pergunte a alguém que não seguiu carreira relacionada com línguas em que século viveu Machado de Assis. Aliás, experimente tentar fazer alguém escolhido no meio da rua confessar em que circunstâncias ocorre crase em português. Com enorme probabilidade, a vítima não conseguirá fazê-lo nem para salvar a própria vida. O sistema educacional é uma falha absoluta.
Mas é muito mais grave do que uma monumental perda de tempo para todos os envolvidos, como se isso já não fosse suficientemente sério. É uma violação mental e moral, e deliberada. Educação compulsória não tem absolutamente nada a ver com ensinar coisa alguma.

Mais um objetivo pretensamente atingido com educação compulsória é “elevar o nível cultural” do cidadão médio. Na concepção dos burocratas responsáveis, isso se traduz na insana proposta de torná-lo enciclopedicamente competente em assuntos que vão das dinastias do Egito antigo até determinantes de matrizes, mesmo que seu eventual objetivo na vida seja ser caixa de supermercado. Mesmo quando se torna clara a falha do objetivo de produzir pessoas efetivamente cultas, alguns ainda insistem na idéia de que pelo menos se conseguirá despertar algum tipo de apreciação pela cultura. Essa ideia, no entanto, é fadada a um retumbante fracasso; e ainda bem, aliás, porque a caricatura padronizada (e muitas vezes factualmente errada) forçada goela abaixo dos “alunos” é tudo o que “cultura” não é.
O que de fato se produz é confusão, na maior parte dos casos seguida de absoluto desprezo pela verdadeira sofisticação cultural. Esta passa a ser quase universalmente percebida, como resultado desse processo, como mera competência na repetição de fórmulas sem sentido completamente desconectadas da realidade, que é o que geralmente se exige e premia nos alunos de uma escola e, infelizmente, muitas vezes de níveis mais altos de educação. Mesmo quando os assuntos abordados incidentalmente coincidem com as inclinações naturais de algum aluno, eles são explorados de forma arbitrária, caótica e fragmentada, sem qualquer liberdade para exploração independente, e sob um regime de força que destruiria o mais espontâneo dos interesses.

Outro objetivo pretensamente atingido é o de produzir magicamente uma elite intelectual sob demanda. Só que educação não é mágica. Nem todos têm vocação ou competência para serem elite intelectual. E embora possa haver mérito em procurar não desperdiçar a competência daqueles que de fato a têm, não é possível produzi-la artificialmente.
Se perguntarmos a um atleta olímpico como ele conseguiu uma medalha de ouro, ele provavelmente responderá que treinou arduamente por horas todos os dias durante muitos anos. Não segue daí que se forçarmos todos a treinarem arduamente por anos transformaremos todos em atletas olímpicos. Talvez até revelemos acidentalmente alguns mais (ao enorme custo de produzir uma massa de pessoas perturbadas porque não conseguem correr 100 metros em 10 segundos). Mas é impossível produzir cientistas em massa usando educação forçada.
Até hoje, o Brasil, uma das maiores potências econômicas do planeta, não consegue ter sequer uma de suas universidades na lista das melhores 200 do mundo — duzentas. Com toda a sua pompa e circunstância, do ponto de vista acadêmico o Brasil permanece essencialmente insignificante. Que perca para a França ou a Suíça, vá lá. Mas países como a Índia, a China, e a Coréia do Sul conseguiram produzir o que nós não conseguimos: têm universidades entre as primeiras 50.

A criação de uma elite intelectual se relaciona com outro suposto e fracassado objetivo da educação compulsória: catapultar o país para indústrias e mercados de alta tecnologia. Ao invés disso, o que produzimos no final de um longo processo são doutores fazendo concurso para gari.
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Fonte: OrdemLivre

Divulgação: www.juliosevero.com

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